terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Nierlenthar

Bazarus estava distraído engrossando o caldo de uma sopa em seu caldeirão e sofrendo com o calor em sua cabana abafada quando uma série de batidas urgentes em sua porta quase arrancou a armação simples de madeira das dobradiças. Ele mal teve tempo de abrir a porta e três orcos musculosos começaram a entrar na sala em meio a agradecimentos e desculpas. Quando pousaram os olhos sobre ele, porém, pararam de chofre:
            - Me desculpe, irmão. – disse o que parecia ser o líder. Possuía longas costeletas e roupa de caçador com uma garrucha na cintura e um longo mosquete de caça nas costas. – Não sabíamos que um filho do sangue morava aqui. Somos nierlenthar e é desrespeitoso entrar em sua morada. Se não quiser nos ajudar, partiremos sem questionar.
            Ele e outro orco, um mais gordo com uma barba já um pouco grisalha e com avançada calvície carregavam pelos braços o terceiro. Sem barba e com um longo cabelo preto em um rabo de cavalo, ele parecia ser o mais jovem. Estava sem camisa e um ferimento grande e feio estava em seu ombro esquerdo com o sangue negro escorrendo e pingando constantemente. Não, disseram as vozes na cabeça dele, não os deixe entrar, não faça isso. Bazarus não hesitou, sinalizando para a mesa de madeira mais adiante. Os visitantes inusitados assentiram e arrastaram o jovem ferido para a mesa, o jogando sobre ela após removerem alguns papéis e uma caneta esquecidos sobre ela.
            O jovem gemeu quando o colocaram sobre a mesa. Bazarus reparou bem nele e nos demais. Suas botas estavam sujas e enlameadas. O orco mais velho carregava um mosquete e um arcabuz pesado, além de um machado de duas mãos e possuir adagas. Ao redor de seu pescoço ele possuía colares étnicos assim como sinais desenhados em seu rosto com tinta branca recente, de apenas alguns dias atrás, que agora já começavam a evanescer. Mesmo coberto de sangue, ele pôde identificar a tatuagem do clã Lodz no ombro esquerdo do mais jovem.
            - O que aconteceu? – perguntou Baz, embora já desconfiasse.
            - Ele foi baleado há algumas horas enquanto tentávamos fugir com algumas cabeças de gado a noroeste daqui. – disse o líder. – Mas algo está errado. Tentamos tirar a bala, mas isso só piorou a situação.
            - Não basta confessar que somos nierlenthar, você precisa detalhar nossa desonra para o nosso anfitrião? – disse o mais velho, ensaiando dar um safanão no outro.
            - Não se preocupe. – disse Baz, retornando para perto do orco ferido com água quente em uma chaleira assim também como seus instrumentos. – Eu também sou nierlenthar, mas não me importo mais com a tradição. Para todos os efeitos, eu sou apenas um raizeiro da mata.
            - Um caboclo na estrada nos disse para vir aqui. Sua fama de curandeiro se espalhou. – disse o líder. – Sou Otto, este é Emanuel, meu pai. O paciente é meu irmão mais novo, Musta.
            - O caboclo na estrada o fez apenas porque sou o único curandeiro daqui até Entreposto. – disse Baz, analisando a ferida e limpando-a. – O que aconteceu é que por algum motivo o balaço se fragmentou. Vários pedacinhos entraram na carne do seu irmão, e quando vocês tentaram tirar, apenas o feriram mais. Eu posso curá-lo. Primeiro, preciso retirar os fragmentos. Vou precisar que vocês dois o segurem. Firme.
            Otto e Emanuel obedeceram sem questionar. Bazarus pegou suas pinças, respirou fundo e se pôs ao trabalho. Musta gritou como se estivesse sendo empalado por um ferro em brasa, se debatendo e chutando. Mas os orcos fizeram o prometido e o seguraram firme e a destreza de Baz não o abandonou. Em poucos minutos, todos os pedaços de chumbo haviam sido retirados. Ele então cobriu a ferida com um emplastro e a enfaixou e deu uma bebida forte pra Musta, que logo estava ressonando tranquilamente. Os três se afastaram, enxugando o suor da testa e trocando olhares congratulatórios.
            - Muito obrigado. – disse Otto. – Sem sua ajuda, ele provavelmente teria morrido. Deixe-nos recompensá-lo com o jantar! Abatemos uma cotia agora à tarde, eu e meu velho podemos prepará-la ao ar livre.
            Bazarus pensou em recusar, mas não podia jogar Musta na estrada e um jantar ao ar livre com companhia seria melhor do que cozinhar sozinho naquela cabana abafada. Logo o fogareiro no quintal, próximo à frondosa mangueira do raizeiro, estava aceso e as montarias dos viajantes circulavam por aí. Possuíam dois cavalos pequenos e magros, mas Otto montava um verdadeiro tesouro entre os orcos: uma queixada gigante criada desde o nascimento. O enorme animal peludo logo se instalou sob a mangueira, se esbaldando satisfeito com as frutas caídas. Os três orcos se sentaram ao redor do fogareiro enquanto o jantar não ficava pronto e conversaram fiado por um tempo, mas a conversa logo vai parar em outros pontos que Baz sabia serem inevitáveis.
            - Diga-nos, Baz, qual foi o seu crime? – perguntou Otto. – O que trouxe desonra sobre seu nome?
            - Não ouso dizer. – disse ele, olhando para Emanuel. Conte, disseram as vozes, conte e lave o chão com o sangue deles. – Você pode ser novo o bastante para não se importar, mas seu pai é velho. Ele não perdoaria meus pecados tão facilmente. O sangue não esquece.
            - O sangue não perdoa. – completou Emanuel. – É algo com seu clã, não é? Você usa roupas com mangas de propósito para esconder a marca de seus ancestrais.
            Bazarus assentiu.
            - E vocês não são meros ladrões de gado. – disse. Pai e filho se entreolharam.
            - O que lhe dá tanta certeza? – perguntou Otto.
            - Vocês conhecem muito bem das tradições e as respeitam e ainda conhecem a heráldica dos clãs. Seu pai pinta o rosto e usa colares do sangue e você criou uma queixada do berço como costume para ser digno de montá-la, assim como os ancestrais faziam com os javalis de Shak’Tar. Você foi nascido aqui, mas não seu pai, ele ainda possui o sotaque das savanas setentrionais da terra mãe. Não sei como ele veio parar aqui, podia ser um imigrante comum e fiel ao sangue e suas regras, mas agora não é só isso, não é? Vocês já eram nierlenthar antes: ladrões e mercenários, como quase todos os orcos de Azura, mas agora vocês são mais: são guerrilheiros. Acredito que fazem trabalhos para uma das células que financiam a resistência em Shak’Tar.
            - Parece que Baz nos sacou direitinho, pai. – disse Otto com um sorriso leve no rosto.
            - Os pais de meus pais. – disse Emanuel após uma pausa. – E os pais deles antes deles, vieram para esta terra como escravos dos invasores. Eles chamaram Katamero, este continente, de nova fronteira, terra da conquista e das oportunidades. Os invasores de Eron há séculos se digladiavam com os homens pretos do norte de Shak’Tar e com nossos clãs, quando perceberam que nossa sede por sangue e glória podiam ser úteis aos seus interesses nefastos na terra nova. Você se enganou, Bazarus, eu nasci aqui, na costa dos Sertões e conheci um avô que foi ex-escravo que me ensinou muito, inclusive a ter saudade de uma terra e de um povo que nunca conheci.
            - Quando nos chegou a notícia de que as colônias estão lutando contra a dominação dos Reinos Antigos, não tivemos como não colaborar! – disse Otto. – A escravidão em Azura pode ter acabado há 300 anos, mas nosso povo nunca mais foi o mesmo, ainda não somos senhores de nossas próprias terras. Os humanos são como uma doença, todos eles... brancos, pretos... mesmo aquele caboclo na estrada não hesitaria em ver nós todos mortos. Precisamos de independência, precisamos reerguer o reino de Urkrun, unir os clãs!
            Bazarus assentiu lentamente observando o brilho queimar nos olhos vermelhos de Otto e o mesmo patriotismo arder nas palavras de Emanuel. Ele suspirou. O assado começava a cheirar bastante bem e ele se levantou para conferi-lo. Ele podia falar. Quem ele era e tudo mais. Podia dizer muitas coisas. Tentou se conter, mas algumas palavras acabaram escapando.
            - Nosso povo é um povo quebrado. – disse. – Espalhado pelos quatro cantos do mundo, mercenários e bandidos sedentos de sangue que agora infestam a Serra Vermelha e a Cordilheira Prateada. A grandeza do reino de Urkrun jamais será restaurada, os clãs jamais se unirão. Ur tentou manter os clãs unidos e foi recebido com traição e assassinato.
            - Ur nos traiu! – rosnou Emanuel, batendo com o punho fechado em sua coxa. – O clã de Ur queria nos colocar abaixo dos humanos, subservientes, meras marionetes em seus...
            - O clã de Ur moveu nosso povo para o futuro! – disse Bazarus. – Em todos os sentidos: políticos, militares, diplomáticos. Se não fosse a traição de Undar, o sonho da independência e da restauração de Urkrun poderia ser mantido, mas Undar jogou esse sonho no lixo!
            - Undar não se vendeu por mentiras vazias! – Emanuel se pôs de pé, lívido. – O clã de Ur se considerava melhor que os outros orcos, confabulando e planejando com o imperador. Os humanos lhes dava poder e ele presenteava nosso povo com mentiras e opressão!
            - Undar era um clã ingrato e traidor! – disse Bazarus. As vozes em sua cabeça explodiram. Rugiam, enfurecidas e ele podia ouvir os tambores da guerra. – Sedento de poder e ouvindo o chamado ancestral por pilhagem e destruição! Undar jogou fora a chance dos orcos serem melhores! Muito melhores! Podíamos ser os senhores da Cordilheira agora, e não meros peões nas mãos dos anões!
            Os dois ficaram assim. De pé, bufando, olhos vermelhos encarando olhos vermelhos. Otto os encarava, chocado, até que finalmente puxou o pai de volta para a cadeira e Baz fez o mesmo. A cabeça dele parecia prestes a explodir.
            - Sei que as decisões de Ur, desde o final da escravidão, não foram as melhores. – disse ele, por fim. – Mas foi Ur que salvou nosso povo do extermínio pelos humanos ou de nos destroçarmos com a guerra civil. Seu avô deve ter lhe contado isso: quando Ur se uniu ao imperador, a nação havia sido reduzida a dez mil. Dez mil! Dez mil filhos do sangue em todo Katamero, Shak’Tar e Eron combinados! Centenas, talvez milhares de linhagens históricas deixaram de existir, linhagens nobres, poderosas, destruídas. E o que ganhamos com Undar? Ladrões de gado. É isso o que somos hoje.
            - Você é ele, não é? – disse Emanuel. – O Último Filho de Ur. O amaldiçoado. Corre a lenda de que você não pode morrer, não enquanto não limpar a honra de seu nome.
            Bazarus assentiu e levantou sua manga esquerda, exibindo a marca de seu clã. Emanuel rosnou baixinho enquanto Otto arregalou os olhos e assobiou, completamente embasbacado. Tarde demais, o raizeiro percebeu que não devia ter feito isso. O orco mais velho sacou uma de suas adagas e se preparou para avançar sobre Baz antes que Otto pudesse contê-lo. Baz não hesitou e ergueu os braços, chamando o raio. Com um estalo, um feixe de eletricidade despencou do céu e atingiu em cheio a cotia assada, explodindo o fogareiro e arremessando os três para longe.
            Lentamente, os três se levantaram, atordoados.
            - Você, você tem a magia da natureza ancestral. – disse Emanuel, ainda mais impressionado. – Isso é impossível! Os desonrados são esquecidos pelos deuses!
            - Talvez os deuses me perdoaram, mas meus irmãos de sangue ainda não. – disse Baz.
            Emanuel não se intimidou. Seu rosto era uma mistura de raiva e indignação. Guardou sua adaga.
            - Otto, vá buscar seu irmão. Vamos comer em outra paragem.
            - Mas pai...
            - Obedeça, garoto! – rosnou, o que imediatamente colocou Otto em movimento.
            O velho orco reuniu os animais e lançou um último olhar profundo para Baz.
            - Eu agradeço por sua hospitalidade e por curar o meu filho, herdeiro de Ur. – disse. – Mas tenha sempre em mente: o sangue não perdoa, o sangue não esquece. Seu dia pode não ser hoje, nem amanhã, mas ele vai chegar.
            Os orcos partiram na noite e deixaram Baz cismado e irritado em seu quintal.

            - Vou esperar sentado! – reclamou ele para a noite antes de voltar frustrado para a sua sopa na cabana. Tinha criado grandes esperanças para a cotia assada.

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