terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Uma fogueira de mágoas

A noite havia acabado de cair, mas o calor do dia ainda permanecia. Era sempre quente naquela província. A estrada era estreita e de terra batida. Algumas árvores baixas e de casca grossa ladeavam o caminho, mas o horizonte era vasto e reto, sem árvores ou serras para bloqueá-lo. Cybelle estava distante de Entreposto e Meia-Ponte, distante de Serra Vermelha. Ela seguia a pé e lentamente após avançar o dia todo sob o sol inclemente e a lateral da estrada parecia um ótimo lugar para parar e passar a noite. Nos próximos quilômetros só havia algumas árvores e pastos, nada ameaçador naquele pedacinho preguiçoso e esquecido do mundo.
            Ela fez uma curva na estrada para um pedaço da estrada protegida por um barranco e uma velha árvore torta de grandes raízes, e já se preparava para se assentar quando seus ouvidos captaram movimento vindo de adiante. Cybelle se concentrou. Parecia ser um grupo pequeno, mas havia animais com eles, burros. Era seu tipo menos favorito e gente: tropeiros. A elfa subiu na árvore torta e permaneceu em silêncio, torcendo para não ser percebida ali em cima. O grupo de viajantes finalmente dobrou a esquina e era muito menor do que ela esperava: quatro figuras humanoides acompanhadas de oito burros carregados.
            Foi então que ela percebeu que as quatro figuras eram praticamente da altura dos burros. Vestiam roupas comuns de viagem, com botas pesadas, dois vestiam macacões e todos possuíam chapéus de palha de aba larga. Eram troncudos e um tanto arredondados, mas qualquer dúvida sobre a procedência dos viajantes sumiu logo em seguida:
            - Por que devemos parar aqui? – disse um deles com a voz fina.
            - Porque se você não fosse um idiota, perceberia que aqui tem um barranco. – disse uma voz mais grossa e mais experiente. – Barranco este que vai bloquear a luz da nossa fogueira e evitar que todos os bandidos, monstros, guardas e padres da freguesia inteira descubram exatamente onde nós estamos. Por isso nós vamos parar aqui.
            Perfeito, pensou Cybelle. Ela ia ter que passar a noite em cima da árvore. Os quatro anões dispuseram os burros em um círculo ao lado da estrada e os amarraram depois de tirar os pesos de seus lombos. Logo os quatro já acendiam a fogueira e se sentavam no chão, protegidos pelo barranco. Eles não pareciam ter notado a presença dela, mijando, peitando e xingando sem qualquer cerimônia. Assim que a fogueira foi acesa, ela pôde vê-los melhor. Dois deles pareciam mais velhos e maduros, enquanto os outros dois pareciam jovens. Seus cabelos eram curtos, o de um deles era até raspado e apenas o que parecia ser mais velho tinha alguma barba: um farto e bem cuidado bigode negro. Eles tiraram seus chapéus de palha e logo um cheiro gostoso subiu ao ar.
            - Elfa, você pode enxergar e ouvir melhor do que nós, mas não pode enganar nosso nariz. – disse o mais velho mais alto em um dado momento, sem erguer os olhos. – Estamos cozinhando toucinho caso você não queira passar a noite em cima da porra da árvore.
            Cybelle hesitou. Ela não gostava de anões, mas, pensando bem, ela não gostava de ninguém, nem de outros elfos. Ela ponderou suas opções: eles não eram humanos, o que já era bom, pois não poderiam ser perseguidores, clérigos da Maré nem simpatizantes. Eles também não estavam muito armados. Em uma avaliação rápida, ela vira apenas duas garruchas velhas e um mosquetão. O que era estranho já que comitivas anãs costumavam andar com o melhor disponível, como repetidoras e revólveres, mesmo que fossem obscenamente caros.
            - Ande logo. – disse um dos mais novos. – Nós não mordemos.
            - Calado, Geraldo. – disse outro.
            A elfa deu de ombros. Ela podia dar conta de quatro anões em um piscar de olhos sem sequer suar. Desceu da árvore e foi recebida com uma curta salva de palmas e assobios. A festa parou assim que eles viram os olhos dourados e duros dela que logo se sentou entre eles sem muita cerimônia e sem cumprimentos. Os anões se entreolharam.
            - Certo. – disse o mais velho de bigode. – Eu sou Salazar e estes são Geraldo, Arão e Olavo. Estamos indo em direção à Meia-Ponte, depois Talbíria. Três meses de viagem com a estrada boa ou seis com a estrada ruim. E você, minha querida?
            Cybelle não respondeu.
            - Certo. – repetiu Salazar. – Poucas palavras. Sei. Tudo bem.
            - Você é um deles, não é? – disse Geraldo, o outro mais velho. Sua expressão era séria, marcando seu rosto com rugas. – Um dos arcanistas clandestinos. Por isso estava escondida.
            - Tio! – brigou um dos mais novos, Olavo talvez, os jovens pareciam iguais aos olhos dela. – Isso é rude!
            - Rude vai ser eu fazer você engolir sua língua, moleque chato da porra! – rosnou Geraldo antes de voltar a se virar para Cybelle. – Não se preocupe conosco, elfa. Nossos povos não se amavam no passado, mas são águas passadas. Não temos problemas com o povo da floresta e não nutrimos simpatia alguma pelos idiotas da República ou da Maré. – ele cuspiu no chão.
            Salazar deu-lhe um safanão.
            - Claro que não simpatizamos com a Maré, seu idiota! Que anão apoiaria um grupo de fanáticos que quer matar todos os anões?
            - Ou nos mandar de volta para Eron. – comentou Olavo – ou Arão – baixinho.
            - Mas se você fosse um orco, talvez não fossemos tão hospitaleiros. – disse Geraldo com um sorriso torto. Alguns dentes cobertos de metal brilharam na luz bruxuleante.
            Cybelle retribuiu um pequeno sorriso, mas não por diversão e sim memória. O povo de sua tribo odiava todos os invasores vindos de Eron e dos Reinos Antigos, mas desgostavam particularmente de anões. Quando os invasores vieram para a província, eles vieram pelo ouro, mas ele logo acabou, em menos de cinquenta anos. Muitos dos elfos de Eron, os Drainar, foram embora, mas os anões ficaram, cavando cada vez mais fundo. Mas não ficaram satisfeitos com isso. Derrubaram as matas, fizeram pastos, escravizaram e mataram os Reliar indiscriminadamente. Foram trezentos anos de terror até tudo parar, mas o rancor permanece. Algo em Cybelle lhe dizia que ela não podia matar quatro comerciantes inocentes. Outra parte perguntava por que não.
            - Aquilo é o que eu estou pensando? – disse Olavo/Arão apontando para uma árvore baixa e retorcida no meio do pasto. Cybelle só precisou pousar os olhos sobre ela para reconhecê-la.
            - É sim. – disse ela. – Mas eu odeio até o cheiro. Não pense em colocar no toucinho.
            Os anões pareceram um tanto decepcionados.
            - Ah, sem problema. – disse um dos jovens. – Nós vamos colher pra botar no arroz amanhã. Vamos Arão. – os dois se levantaram e se embrenharam no meio do pasto alto indo em direção à árvore. Geraldo voltou a olhar Cybelle com um olhar desconfiado.
            - Não é comum vermos Reliar viajando sozinhos. Você abandonou sua tribo? – ele perguntou.
            Salazar deu-lhe outro safanão.
            - Geraldo, você é meu primo e eu te amo, mas como dizia a vovó Godofreda: em boca calada não entra rola! Isso lá é pergunta que se faça?
            - É só que, se ela fosse uma Reliar comum, nós estaríamos mortos com flechas em nossas costas antes mesmo que nos déssemos conta. – disse Geraldo.
            De alguma forma, o comentário do anão atingiu o âmago de Cybelle. Ela sentiu uma dor profunda. Era raro ela ter noção do qual solitária realmente era. Uma tristeza profunda abateu sobre ela.
            - É por isso que eu não morro de amores por anões. – disse ela, tentando dar um sorriso. Salazar riu e bateu as mãos.
            - Exato. Você vai ter que perdoar o primo. Ele é forte como um boi, mas pensa como um, também. Como desculpas, posso lhe servir um pouco de nossa cachaça? É bem forte, veio direto de Serra Vermelha. – Cybelle aceitou e Salazar se levantou para buscar em uma garrafa perto de suas malas. Deu um bom trago, passou para Geraldo que fez o mesmo e então a garrafa foi passada para Cybelle, que se arrepiou conforme a bebida desceu rasgando as suas entranhas. Salazar sorriu. – Pronto! Sem mágoa entre nossos povos!
            - Seu povo. – disse Cybelle. – Exterminou os gnomos e forçou o meu povo para dentro da floresta. Há muita mágoa, mas não entre eu e você.
            O sorriso de Salazar sumiu e ele assentiu, triste. Geraldo ergueu os braços, como se defendendo.
            - Ei, nada disso! Os Drainar exterminaram os gnomos. Nós apenas fomos... omissos. – disse.
            Fato. Um dos maiores clássicos da literatura mundial, Deuses de Sangue, era sobre como os invasores anões eram babacas desde sempre e sobre seus 800 anos de pilhagem e omissão nos Reinos Antigos e em Shak’Tar muito antes de pisarem em Azura.
            - Quem exterminou quem? – Olavo e Arão retornavam com dois baldes cheios de frutos amarelos com um cheiro muito forte. Cybelle tapou o nariz e Salazar fez sinal para que eles levassem as frutas para longe, o que eles obedeceram.
            - Os Drainar, os elfos de Eron, que mataram os gnomos e roubaram sua tecnologia. É por isso que vocês dois idiotas viraram tropeiros: se tivessem estudado, podiam ser banqueiros ricos na Cordilheira de Prata. – disse Salazar.
            - Meu povo possui um nome diferente para a cordilheira. – disse Cybelle, tomando outro trago da cachaça e a passando para Salazar. – Éden Mondi.
            - A Espinha do Mundo. – disse Salazar assentindo e tomando outro trago. Tossiu e passou a garrafa para Geraldo. – Um verdadeiro paraíso, lá. Montanhas de verdade! Maiores até do que as dos reinos de nossos ancestrais em Eron. As minas de Leotar e Almada parecem nada perto do que estão fazendo na cordilheira.
            - Às custas de milhares de Reliar. – disse Cybelle, seca.
            Salazar pareceu encabulado. Geraldo apenas rosnou. Seus olhos secos estavam pousados sem humor sobre Cybelle. As mágoas antigas podiam não existir para Salazar, um comerciante antes de tudo, mas a elfa sabia que um traço comum às duas raças era um gosto por se ater a velhos rancores.
            - Me desculpe. Não sei o que dizer. – o sorriso sumiu novamente do rosto de Salazar. – Eu estive lá, apenas uma vez. Não há espaço para pequenos comerciantes como nós, mas o lugar está infestado de aventureiros. Especialmente humanos e até orcos. Dizem que muitas células terroristas estão lá, levantando fundos para ajudar os clãs rebeldes de Shak’Tar.
            - Não há apenas orcos. – disse Geraldo, seco. – Muitas tribos humanas também. Lamento te dizer isso, mas o tempo dos selvagens acabou: a civilização chegou e a magia deixa este mundo.
            Cybelle sentiu o sangue ferver. Percebeu que estava levantando umas das mãos.
            - Geraldo, meu caro, porque não se junta aos meninos ali e deixa de besteira, hein? – disse Salazar, ameno.
            - Está levantando a mão porque, bugre? Acha que pode me assustar com algumas luzes? – resmungou Geraldo. – Invasores... nós trouxemos a luz da civilização para Katamero! Se não fosse por nós, pelos Drainar e pelos Reinos Antigos, seu povo ia viver no meio do mato limpando a bunda com a mão por 3000 anos! E os orcos, aqueles...
            Geraldo então sufocou. Caiu de costas no chão, agarrando e arranhando a própria garganta enquanto uma mão invisível esmagava sua traqueia. Arão e Olavo vieram correndo, confusos. Salazar apenas fez sinal para que levassem o velho anão dali. Eles o agarram pelos braços e o arrastaram para longe e logo ele voltou a arfar. Salazar dirigiu um olhar triste para Cybelle.
            - Eu não vou me desculpar. – ela disse.
            - E nem deve. – ele lhe estendeu novamente a garrafa de cachaça. – Me desculpe por isso. Às vezes ele consegue ser tão ruim quanto os humanos. Ele é velho e tolo... Há muito tempo os anões de Azura aprenderam a se adaptar. Vivemos na superfície, tiramos nossas barbas, mas mais importante: ao contrário dos humanos, percebemos que preconceito é ruim para os negócios.
            - Morrer é ruim para os negócios. – disse Cybelle. – Obrigado pela hospitalidade, Salazar. Você parece um bom anão, mas eu vou procurar outro lugar para dormir.
            Salazar assentiu. Ele se levantou e fez sinal para que ela esperasse. Pouco depois, retornou com um pacote. Ela o abriu, curiosa. Ele continha carne seca, tiras de bacon e um pedaço de toucinho. Mas mais surpreendente: um enorme colar com detalhes em ouro e belas pedras azuis da região de Meia-Ponte. Cybelle ficou sem ar.
            - É... é belíssimo! Não posso aceitar, eu...
            Ele dispensou as desculpas dela com um aceno.
            - Fomos rudes com você, jovem. – disse ele. – Considere isto um pedido de desculpas. Ah, leve isto também! – ele buscou uma garrafa fechada de cachaça. – Este colar... eu comprei para a minha Brida. Ela toma conta de três caravanas em Meia-Ponte, acredita? Um prodígio dos negócios aquela mulher...
            Ele fez uma pausa e assentiu para si mesmo.
            - Eu sou velho, menina. Tenho mais de 300 anos. Vivi o bastante para testemunhar o finalzinho do terror quando ainda era jovem. Aquilo me marcou.  – outra pausa. – Não sei o que fizeram com você ou com os seus, mas me escute: os tempos estão mudando. Não desista da luta.
            Cybelle assentiu.
            - Obrigado, Salazar. Até a próxima. – disse ela se afastando após apertar-lhe as mãos.
            - Vá em paz no Caminho! – ele disse.

            - Você também! – ela retribuiu, embora não fosse sincero. Em seu caminho, sempre só houveram trevas.

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